Firehosing – Marketing Digital e a Política

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Um assunto que está muito em alta e você certamente já ouviu falar é: fake news. Já desde há década passada que eu sinto a dificuldade de muitos entenderem o porquê que existem pessoas que criam essas coisas ruins, pra enganar e fazer as pessoas de bobas.

A verdade é que na maioria das vezes vai muito além daquele adolescente bobão que fica criando hoax na internet e se mata de tanto rir sozinho vendo todo mundo compartilhando. Hoje, as fake news são estratégias de grande poder de influência de massa e isso pode estar empurrando o mundo pra um caminho muito ruim e é sobre isso que eu quero falar e, principalmente alertar você nesse meu artigo.

Em 2016, pesquisadores norte-americanos publicavam uma pesquisa que revelava uma nova estratégia de propaganda política que tinha uma base não muito convencional. Ela consistia, basicamente, num fluxo de mentiras constante, emitidos por diferentes canais de comunicação com intuito de gerar confusão e afirmar crenças políticas.

Ao contrário do que muitos pensam, esse estudo não foi feito a partir das estratégias discursivas de políticos como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, mas ele foi elaborado depois de uma análise da máquina de propaganda de Vladimir Putin.

O estudo foi feito pela Rend Corporation, um Think Tank norte-americano focado em pesquisas e análises políticas. Ele descreve o funcionamento da máquina de propaganda russa entre 2008 e 2014, época da anexação da Crimeia ao território do país, e aponta quatro aspectos principais de uma tática de comunicação que os autores chamaram de “Firehose of Falsehood”.

Em português, o termo significa algo como “Mangueira de Falsidades“. A expressão foi uma metáfora utilizada para explicar o conceito.

Um fluxo constante de mensagens que impossibilita a defesa de outra perspectiva afim de afirmar posições políticas específicas. De acordo com os pesquisadores essa técnica tem como característica o alto volume de conteúdo e a produção rápida, contínua e repetitiva.

Mas além disso, o Firehosing também não tem comprometimento com a realidade e não precisa ter consistência no o que se diz entre um discurso e outro.

Quando as tropas russas invadiram a Crimeia, por exemplo, Putin foi a público negar o fato, acusou a mídia de emitir informações falsas e afirmou que as imagens divulgadas na imprensa eram de milícias privadas. No entanto, algum tempo depois, com o território já anexado, o presidente admitiu que as tropas enviadas a região eram, de fato, russas.

A estratégia de Putin desvendada na pesquisa da Rend Corporation foi eficiente. Como outra característica do firehosing é divulgar as mensagens em múltiplas plataformas e ao mesmo tempo, a opinião pública tende a validar a informação e desconfiar menos de seu conteúdo. Isso porque quando nós recebemos uma notícia por canais e pessoas distintas, ainda que a origem seja de uma única fonte, possivelmente mentirosa, isso cria uma sensação de legitimidade para aquela mensagem. E mesmo que o conteúdo mentiroso seja checado e desmentido na sequência, o estrago já foi feito.

No artigo publicado na Rend, os autores argumentam que as ferramentas multicanais combinadas com a máquina governamental acabam criando o monopólio das primeiras impressões do público.

A propaganda política, portanto, ganha o domínio da “primeira notícia”, moldando a memória das pessoas e influenciando suas decisões. Para muitos esse tipo de estratégia também passou a ser utilizada mais tarde por políticos como Trump e Bolsonaro.

No entanto em uma entrevista para a Vox, Christopher Paul, um dos autores do artigo, negou que os resultados obtidos na pesquisa pudessem ser aplicados, por exemplo, na administração Trump.

Ao mesmo tempo a posição do sociólogo é questionável. O estudo da Rend Corporation foi financiado pelo Gabinete de Defesa dos Estados Unidos e o próprio Think Tank tem ligações políticas com a segurança nacional norte-americana há mais de 50 anos.

A jornalista Masha Gessen, autora de dois livros sobre Putin e de outras publicações sobre governos autoritários, por exemplo, tem uma opinião diferente. Para ela os elementos que o artigo traz também estiveram presentes na propaganda política do atual presidente dos Estados Unidos.

Em entrevista para o Le Monde Diplomatique Brasil, o antropólogo Piero Leirner observa o mesmo padrão no fenômeno Bolsonaro, mas com particularidades específicas. Piero acredita que, desde 2013, foi possível observar no Brasil o surgimento de uma guerra híbrida que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. Esse conceito foi formulada pelo pesquisador russo-americano Andrew Korybko para explicar uma estratégia de deposição de governos que envolve táticas de guerra política, ciberguerra e outros métodos de influência, como fake news.

Para Piero, esse processo que começou como guerra híbrida teria favorecido o crescimento de Bolsonaro e culminou no firehosing como estratégia de marketing político do atual presidente e de seus círculos.

De fato, é possível observar a repetição dos pontos que configuram o firehosing em algumas situações que envolvem Bolsonaro.

Nos últimos dias de agosto, por exemplo, Bolsonaro afirmou em uma entrevista para o Jornal Nacional que o livro “Aparelho Sexual e Cia”, fazia parte do material Brasil Sem Homofobia, que o ex-capitão apelidou de “kit gay”.

Entre esse material, Bonner, tava esse livro lá, Bonner…

Trecho de uma fala de Bolsonaro para o entrevistador Willian Bonner

A afirmação de Bolsonaro foi feita em rede nacional logo se pulverizou pelas redes sociais.

Na segunda quinzena de setembro, uma pesquisa listou as publicações mais compartilhada do Facebook que mencionavam o termo “kit gay”. Das cinco postagens mais compartilhadas, quatro vinham de páginas favoráveis a Bolsonaro. E a mais compartilhada era do próprio ex-capitão. Somadas, elas contabilizavam mais de 190 mil compartilhamentos apenas no Facebook.

A afirmação de Bolsonaro foi desmentida na sequência, já que o livro na realidade não fazia parte de kit algum distribuído pelo Ministério da Educação. Assim que a notícia de que a fala de atual presidente era mentirosa foi a público, o ex-capitão fez um pronunciamento nas redes sociais dizendo que o livro realmente não fazia parte do kit, mas que teria sido distribuído em boa parte das escolas do país como um brinde.

O que realmente aconteceu… as editoras que vendem material didático para o governo… por parte do governo, ele exige que as mesmas, à título de brinde, forneçam esse tipo de material. Mas esse livro sim, chegou em grande parte das bibliotecas das escolas de ensino fundamental, em todo Brasil.

Trecho do pronunciamento do Bolsonaro nas suas redes sociais

A comunicação direta de Bolsonaro com com sua base dá sinais de que a estratégia de propaganda política usada nas eleições, com o uso intensivo de canais de comunicação, será mantida em seu governo.

Seguindo a cartilha de Trump, o Twitter se consolidou como o canal oficial de comunicação de Bolsonaro. E assim como os presidentes norte-americano e russo, ele posiciona parte da imprensa tradicional como adversária, apostando em meios de comunicação alternativos. Não atoa, em seu primeiro pronunciamento pós-eleição, Bolsonaro direcionou um de seus principais agradecimentos ao seu público nas redes sociais.

Especialista em Marketing Digital e Desenvolvimento Web/Mobile e alguém que acredita que pode transformar o mundo ainda que seja somente o mundo de alguém.

Eu sou o Tihh Gonçalves e essa é a minha Tática de Sucesso.